A antropóloga Hilaine Yaccoub fala sobre as questões sociais e culturais que envolvem a Moda da Daspu
Os projetos da Organização Não-Governamental Davida privilegiam ações lúdicas para tratar de assuntos de cunho político-social, um de seus projetos foi a criação, em 2005, de uma grife conhecida nacionalmente por DASPU que tem foco na produção de uma moda diferente em sua essência.
A DASPU quer falar para o mundo; a voz antecedeu a moda. O ineditismo surpreendeu, afinal de contas, a DASPU é uma grife que nasceu a partir da organização de prostitutas do Rio de Janeiro, que passaram a fazer moda politizada, por meio de camisetas contendo frases chocantes e estimulantes da linha ativismo. Exemplo dessas frases encontramos: “Somos más, podemos ser piores” (a camiseta mais vendida), “i Love PU”, “Daspu moda para mudar”, “Meu botão é mais embaixo”.
Peças que Camargo (2007), em seu trabalho intitulado “A roupa-panfleto Daspu – Anotações sobre um canal de comunicação”, diz participar de um sistema de códigos. A camiseta “poderá ser lida como um texto que vincula um discurso” (pág 2); ou seja, o texto estabelece uma relação com seu usuário, atestando a sua vocação, crença e por conseguinte, seus valores, e também estabelece uma relação com quem lê, com o externo. Assim, a camiseta-panfleto, afirma a autora, faz eclodir os efeitos de sua produção. É, na verdade, uma manifestação discursiva não restrita à comunicação, gerando significação, “a camiseta é um espaço que significa e que se faz por esse seu peculiar moda de existência” (p. 3).
Não importa se o modelo criado é criativo ou fashion, a DASPU é moda engajada, politizada, pensada e criada para defender e dar visibilidade a uma causa, mas dentro desse contexto, por que comprar DASPU? Quem compra?
Segundo a ONG Davida¹ , 70% dos compradores da DASPU utilizam a internet para realizar suas compras, por meio de um canal denominado ‘Putique’, alocado no site oficial da DASPU. Pesquisa quantitativa com cerca de 4,8 mil clientes cadastrados no site, e também uma qualitativa realizada no 100 Educaids, realizado em 2007 em São Paulo, totalizando 500 questionários respondidos (cerca de 10% do total de clientes) permitiu conhecer melhor os clientes nova grife.
Assim, ficou-se sabendo que a maioria dos clientes são mulheres (62%), entre 26 e 45 anos (57%), pertencentes à classe B1 e B2² (64%), tendo como categorias profissionais professoras, assistentes sociais e psicólogas. Segundo a pesquisa, o que mais chamou atenção desse grupo foi a temática irreverente e bem-humorada da grife; 65% se dizem simpáticos a causa defendida pela ONG Davida. Portanto, o atual público da grife apresenta pessoas com alto grau de escolaridade, socialmente responsáveis, independentes e autônomas, com visão menos conservadora com relação ao tema ligado à prostituição.
Lenz (2008) levanta quatro pontos relevantes acerca da aceitação e identificação com a DASPU. Primeiro, ele aponta que a grife nunca teria frutificado não fosse pelo contexto de uma luta política. Além disso, o nome da marca, fazendo alusão a grife multimarcas Daslu, que havia sido incriminada por sonegação fiscal e corrupção naquele momento, o brilhantismo do nome, somado ao discurso político foram complementares para o sucesso. Outra questão levantada é a moda ser vista como arte, tendo variadas temáticas hoje em dia. Moda não é apenas tecido cortado e costurado, moda é linguagem temporal e identitária. O terceiro ponto levantado pelo autor é o empreendedorismo empresarial, uma vez que a DASPU nasceu dentro de um contexto de ativismo, tendência hoje para segmentar consumidores, que compram para investir e apoiar numa causa, o ativismo político dentro da moda é sentido pelo consumidor da DASPU. E finalmente o quarto aspecto levantado é o erótico. As prostitutas sempre foram alvo de fantasias de homens e mulheres, e brincar com essa lógica auxilia a venda de qualquer produto. Segundo Lenz, sexo vende, ou seja, o desejo de vestir DASPU vai muito além vontade de consumir a marca, há uma vontade de deixar livre o sentimento de prazer, de gozar a fantasia erótica da puta. Ele afirma:
“O resumo da ópera: uma inusitada ação política e lúdica, embaralhando sentidos culturais e eróticos e confundindo modelos sociais e empresariais... Tudo isso é DASPU, confirmando o que sempre buscou o movimento: a puta falar por si mesma. E ousando mais: seduzir o restante da sociedade para a sua causa e o seu novo negócio” (LENZ, 2008, p.22 e 23).
Bortolanza (2007) confirma essa lógica quando afirma:
“O desejo de vestir DASPU vai muito além da vontade de consumir a marca. Há um desejo de compartilhar a linguagem dos gestos pornográficos, as fantasias, o erotismo, os prazeres da noite... É como se abrisse um possível, a partir da tensão entre moda e ação política, moda e pornografia, padronização e diferenciação”(p.4).
Assim, a DASPU encontrou a fórmula certa para falar das suas questões, fugindo das “histórias tristes” que Simões (2003) aponta fazerem parte do discurso que permeia a prostituição. O trabalho da DASPU, apelidado de estilismo da autoestima, acaba funcionando com alavanca para lidar com esse grupo, sem apelar para as condições de sentimentalismos e emoções ligadas à pena e tristeza.
¹Dados analisados e sistematizados pelo Projeto de Graduação da ESPM SP em 2007.
²Segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2004, a população brasileira dessas classes sociais, tem rendimento em torno de R$3.480,00 (B1) e R$2..013,00 (B2).
Referências Citadas:
BORTOLANZA, Elaine. As passarelas passeatas da Daspu. Site: www.eroticomia.blogspot.com/2007/10/as-passarelas-passeatas-da-daspu.html Acessado em 29/05/2009.
CAMARGO, Sheila Fátima Giocomazzi. A Roupa- Panfleto DASPU – anotações sobre um canal de comunicação, 2007.\
CASTILHO, Kathia. Moda e Linguagem. Editora Anhembi Morumbi. São Paulo, 2004.\
LENZ, Flávio. Daspu: a moda sem vergonha. Ed Aeroplano. Rio de Janeiro, 2008
SIMÕES, Soraya Silveira. Vila Mimosa II: A Construção do Novo Conceito de “Zona”. Dissertação de Mestrado do PPGA – UFF. Niterói, 2003. (mimeo)\
MACIEL, Renata de Luna F.; GRIECO, Vivian B. Projeto de Graduação ESPM SP 2007/2. DASPU. Mimeo.
Hilaine Yaccoub é antropóloga. Aluna do Programa de Pós Graduação de Antropologia da Universidade Federal Fluminense-UFF no Rio de Janeiro. Leciona e desenvolve pesquisas na área de Antropologia do Consumo, tendo consumo popular, luxo, pesquisas de tendências e moda como temas de interesse. Tem experiência em pesquisas etnográficas aplicadas às pesquisas de mercado, com foco em comportamento e hábitos de consumo, avaliação de marca, imagem, serviço e produto.
Atualmente é colaboradora da DASPU e a ONG Davida.
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