A correspondente Rafaela Mercaldo fala sobre o poder da moda de rua
Rua: um espaço geograficamente desterritorializado, ocupado por identidades múltiplas que transitam por espaços reais, virtuais e imaginários. (Roberto Da Matta)
O sentido de rua pode ser uma metáfora da sociedade contemporânea. Local de referência para as relações, inquietações e idéias do universo urbano. Por mais que a moda seja desenvolvida por grandes corporações, a maior passarela do mundo são as ruas. É lá que a moda ganha vida e sentido no corpo dos mais diferentes tipos de pessoa. A rua das grandes cidades, cosmopolita na essência, virou sinônimo de autenticidade.
Em cidades como Paris, Singapura, Estocolmo, Nova Iorque, entre outras, surge uma figura que é o reflexo dos nossos tempos: o Face Hunter. O termo (face = rosto / hunter = caçador) é usado para os fotógrafos, geralmente amadores, empenhados em clicar cidadãos comuns, porém dotados de um grande senso de estilo. Voyeur, detector de tendências sociais, documentarista da atualidade, profissional da moda, a definição sobre essa nova atividade ainda não tem contornos bem definidos.
Os recentes avanços tecnológicos como a facilidade de acesso à web, proliferação dos blogs e popularização da fotografia digital permitiu que os Face Hunters surgissem. O blog mais famoso neste segmento é do fotógrafo Scott Schuman, o Sartorialist, que existe desde 2005. Seu olhar afiado para detectar estilo ficou tão conhecido que ele já fez campanhas para a Gap e DKNY Jeans, além de trabalhos para a Vogue e outros veículos importantes. Scott Schuman foi quem clicou Sarah Jessica Parker para os anúncios do Shopping Cidade Jardim. A campanha mais recente deste shopping conta novamente com ele. Desta vez, como no Sartorialist, as fotos são com anônimos que esbanjam charme.
Yvan Rodic, Face Hunter, Hoy Fashion, StockholmStreetStyle e Jak & Jil Blog são outros exemplos de blogs internacionais dedicados à moda da rua. No Brasil, pode-se citar o SP00 e o Curitiba Street Fashion. Cidades que favorecem o trânsito de pedestres, chamadas walking cities, são mais propensas a ganharem seus blogs de moda. A estrutura e a organização do espaço urbano são fatores que determinam se atividades do dia-a-dia, como ir ao trabalho, podem ser feitas a pé ou não.
O sucesso dos Face Hunters é catalisado pelo efeito de realidade que a moda de rua cria. Os anônimos que ganham status de “entendidos” de moda ditam um estilo autêntico, mais legítimo do que as grandes campanhas publicitárias. “Fotografar é transformar pessoas em objetos que podem ser simbolicamente possuídos”, disse a filósofa da fotografia Susan Sontag. Sonhamos construir um estilo individual e único, e para isso, controversamente, buscamos referências nos outros.
A jornalista de moda Ana Clara Garmendia publica em sua coluna semanal no jornal paranaense Gazeta do Povo e em seu blog fotos de pessoas que vê pelas ruas de Paris. “Clico as pessoas por um instante muito rápido. Existe algo nelas que me atrai. Depois é que vejo realmente o detalhamento do look. É mais pela energia, pelo charme, pelo andar, pelo movimento, pelas cores, pelo shape, do que algo previamente estabelecido”. Para ela, as grandes campanhas de moda nunca ignoram o desejo do público, mas a rua é responsável por aprovar o que vai realmente ser usado.
Ana Clara acredita que o sucesso dos Face Hunters se deve à uma carência por algo mais verdadeiro quando o assunto é moda. O público se identifica com belezas não tão perfeitas, produções casuais, “embora muitas vezes não sejam”, acrescenta ela. “Não apenas acho que elas (as pessoas comuns) me trazem credibilidade, como são uma maneira visceral de eu mostrar o que acredito ser moda. Se eu coloco na coluna antes é porque estou apostando que esta moda vai acontecer depois. E até agora não tenho errado”, assegura a jornalista.
Roland Barthes, pensador francês do século XX, disse que “fotografar alguém é um assassinato sublimado, assim como a câmera é a sublimação do revólver”. Portanto, na era dos Face Hunters, ter estilo é se tornar uma presa. Apontar, mirar, shoot...
Rafaela Mercaldo cursa jornalismo, é filha de um italiano com uma brasileira, nasceu e mora em Curitiba-PR. Em 2008, mudou-se para Boston, onde fez um curso de extensão em Historia da Arte em Havard (Cambridge, Massachuettes). Apaixonada por arte (seja moda, artes plásticas ou música), Rafaela trabalha como relações públicas no eleito melhor clube noturno do Brasil, a Liqüe. Apresenta e produz um programa de rádio semanalmente na emissora Mundo Livre FM, voltado para música eletrônica e também escreve um blog sobre esse tema, o Warm Up. Para não deixar de viver todas as suas paixões, cursou corte e costura na Academia ANSA e é correspondente do Closet On Line na região sul do Brasil.
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