O publicitário Arthur Valentim enfatiza o papel da moda no ciclo do consumo e seus desdobramentos em relação à sustentabilidade
O conceito de sustentabilidade está na moda. Desde a década de 70 do século passado, iniciou-se uma preocupação das autoridades mundiais em torno da preservação do planeta. Desde então, esta preocupação só aumentou, pois os recursos disponíveis diminuem em um ritmo cada vez maior e o planeta demonstra sinais de seu esgotamento em diversas regiões, com mudanças climáticas e catástrofes naturais cada vez mais severas e freqüentes.
A preocupação em torno da finitude dos recursos disponíveis fez com que questionássemos o modo como nossa sociedade de produção se organiza. Sua organização – um sistema linear com produção crescente ao longo do tempo – não prevê nenhuma restrição, mas ela existe e compõem-se de seus fatores, todos adquiridos por meio da exploração da natureza.
A sustentabilidade é a adequação do sistema de produção (fabricação de bens) à sua restrição (renovação dos insumos extraídos do planeta), maximizando o bem-estar da sociedade e garantindo a continuidade da existência humana de forma harmônica em seu habitat.
O sistema de produção existente só é possível pelas relações criadas entre pessoas e consumo. Para as economias do mundo crescerem e se tornarem mais ricas – riqueza medida pela produção de um país – houve a necessidade de se criar algo que fizesse a produção aumentar. Como resultado, temos um ciclo do consumo: sempre adquirir bens novos, descartando os que não são mais úteis de acordo com determinada percepção. É aí que a moda exerce papel fundamental, pois o ciclo do consumo é estimulado, essencialmente, pela obsolescência dos bens.
A moda, linguagem não-verbal pela qual o indivíduo expressa sua identidade, não está restrita às roupas que a pessoa veste. Ela está presente em todos os bens de consumo: no design de aparelhos eletrônicos, automóveis, computadores, roupas; tudo está repleto de significado de moda.
No momento em que os membros da sociedade passaram a ser reconhecidos pelo que eles consomem, e não mais por seu papel dentro do grupo, fica fácil perceber o papel da moda no reconhecimento da identidade do indivíduo – Sartre já dizia no início do século passado que a consciência de si mesmo é confirmada pelo olhar do outro, e em nossos tempos, este olhar é voltado para o que a pessoa consome.
Se o indivíduo não faz parte do ciclo de consumo, é por meio do design dos bens consumidos que ele será apontado e discriminado por estar obsoleto. Se seus bens são obsoletos, seu proprietário também o é. O papel da moda é decisivo para a roda do sistema girar – consumir, se tornar obsoleto, descartar e consumir o novo – garantindo o crescimento constante da produção, base da evolução do sistema em que vivemos.
Este ciclo de consumo desenfreado, em que consumir é o mais importante para expressar identidade, é o que causa a crise de sustentabilidade do planeta. Para sair deste ciclo é necessária a conscientização da população e da indústria acerca de consumo e produção conscientes – as escolhas devem ser efetuadas buscando o equilibro entre satisfação pessoal e os impactos destes atos no meio ambiente, sociedade e economia. A divulgação destes valores também faz parte do papel do consumidor∕produtor consciente para que seus efeitos sejam cada vez maiores. A moda, como principal propulsor do sistema de produção linear crescente, por meio da obsolescência dos bens pode – e deve – contribuir para a mudança deste cenário.
______________
¹Sartre, J. P. L’être ET Le néant, p.309, Paris: Gallimard, 2003
Arthur Valentim, publicitário (Faculdade Cásper Líbero), graduando em Economia (FEA – USP) e pós-graduando em Administração (Escola de Contas Conselheiro Eurípedes Salles – TCMSP). Carreira baseada em Marketing e Eventos. Atua em Consultoria de Projetos de Comunicação.
Contato: arthurvalentim@hotmail.com
Desenvolvimento WebFamily