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Reportagem Especial: Dener – O Estilista Luxo

Em homenagem ao aniversário de nascimento de um dos grandes estilistas da moda brasileira o Closet On Line preparou uma reportagem especial contando a trajetoria de Dener Pamplona

"Há uma diferença grande entre mulher bem vestida, mulher chique e mulher elegante. Agora criei uma nova categoria: a mulher luxo"

Copiar modelos franceses e europeus, era a marca da moda brasileira. Apesar do nosso clima tropical, era “chique” se engajar à moda européia. 

Pensando em ser diferente dos outros estilistas já conhecidos, Dener Pamplona de Abreu revolucionou totalmente o que poderíamos chamar de “moda certinha”, ao criar seus modelos. Dener não fazia como era de costume da época, criou seu estilo próprio, sua marca, então a partir daí o marco inicial da moda brasileira.  

O lema de Dener era sempre “exagerar”, fazer o que os outros não tinham coragem de fazer, explorava ao extremo sua figura voluptuosa com camisas jabôs, enormes casacos de pele e seu eterno cigarro.

Seu estilo fugia da comodidade, na hora de criar, levava em consideração o físico da pessoa, a idade, o gosto, tudo ligado ao estilo brasileiro, bem tropical, procurava se inspirar em modelos franceses dando seu acabamento e requinte de tão boa qualidade que somente as madames conheciam comparando com seus modelos importados. Artistas e celebridades compravam suas coleções e faziam parte de seu cotidiano. 

Dener com seus gatos, rodeado por vestidos que criou, em foto de Otto Stupakoff

Dener Pamplona de Abreu, mais conhecido e chamado “Dener”, foi um estilista brasileiro que nasceu em Soure, na Ilha do Marajó - PA (segundo informações do seu amigo e assistente José Gayegos) no dia 03 de Agosto de 1937 e faleceu em São Paulo no dia 09 de novembro de 1978, vítima de Cirrose Hepática. Seus primeiros contatos com a moda aconteceram com seus 13 anos de idade, em uma importante boutique carioca, Casa Canadá. 

Conversamos com o seu ex-assistente José Gayegos e ele nos conta um pouco do sonho de Dener, quanto à moda: 

“Aos 13 anos, ele pegava fotos de artistas famosos e ‘criava’ modelos para eles. Começou a vida profissional na Casa Canadá, do Rio de Janeiro, ainda muito jovem, com 15 ou 16 anos, e em 1957, com 20, mudou para São Paulo e abriu seu primeiro ateliê, na Praça da República. Nessa época, era o lugar mais chique da cidade. Sua trajetória foi fulminante. Tornou-se, graças ao talento e comportamento pessoal, uma celebridade. Em 1959, já desfilava na 2ª FENIT". 

Dener começou a criar modelos não somente para as socialites, que só eram acostumadas a fazer suas compras na Europa, mas também para as ex-primeiras damas Sara Kubitscheck e Maria Teresa Goulart. Por isso, acabou se transformando em grande ícone e precursor da alta-costura brasileira. 


Dener e sua Manequim Darcy

Em 1965 casou-se com uma de suas manequins Maria Stella Splendore, teve dois filhos deste casamento; Frederico Augusto e Maria Leopoldina

Dener era muito ligado aos negócios, foi o único estilista que utilizou os meios de comunicação para promover seu trabalho e seu nome. Criou muitos modelos de roupas para as 1ªs damas, pessoas importantes e por isso decidiu fundar em 1968 a primeira grife de moda no Brasil, chamada de Dener Difusão Industrial de Moda. Pois acreditava que com seus modelos e desenhos, a indústria da moda brasileira cresceria e desenvolveria mostrando as outras indústrias a beleza, criatividade dos modelos brasileiros, além, de divulgar a marca e o nome do estilista, que por sua vez, fazia questão de auto se promover. E esse pensamento e ambição deram certo. Tanto que até hoje a indústria da Moda, deve bastante ao estilista.

Dener no seu casamento e com sua mulher e seus filhos

Com o Golpe Militar em 1964, Dener se tornou a primeira celebridade pública brasileira. Passou a ter um programa na TV, chamado: Dener é um luxo e por causa da censura de 1972, seu programa pela TV Itacolomi (BH), foi proibido e censurado. Segundo os opositores ele seria: “um tóxico para a juventude e uma homérica ausência de virilidade”. 

Depois desse desgosto com a TV, foi convidado por Flávio Cavalcanti, para se tornar parte do júri de seu programa na TV Tupi. (Programa Flávio Cavalcanti).  Sentenciando seu bordão: “Um luxo!”.  Dener mostrava sua caricatura cínica e debochada perante a própria situação e fazendo desta, uma maneira de dar a volta por cima. Em 1973 reapareceu nas notícias de jornais querendo unir todos os figurinistas brasileiros, para serem contra a invasão de etiquetas estrangeiras de moda no Brasil. Segundo Dener: 

"Eu não tenho inimigos", "só concorrentes. Mas como não tenho concorrentes...".

A esquerda Clodovil e Dener, a direita Programa na TV Itacolomi

Por causa de sua evidência, o estilista escreveu dois livros: Dener – o luxo e Curso Básico de Corte e costura. Casou-se novamente só que dessa vez com uma cliente, Vera Helena Camargo com quem viveu por somente dois anos.  

 

Apesar de todos os seus modelos terem detalhes de bordados e certa dramaticidade, o estilista defendia bastante o estilo clássico. 

Além disso, tinha visão para os negócios e marketing. Era ele mesmo quem divulgava seu trabalho e seu nome. 

As mulheres o amavam pelo fato que de ele as vestia, já os homens o odiavam porque o amor das mulheres por Dener era recíproco. Tanto é que casou-se com uma de suas clientes

Outra curiosidade bastante interessante sobre Dener é que o mesmo se identificava com a personagem Margarita Gautier de Alexandre Dumas Filho, em A Dama das Camélias, pois, assim como ela, Dener fugia dos parâmetros estabelecidos e se recusava a  aceitar regras. 

Dener criou polêmica com o ex-estilista e Deputado Federal Clodovil Hernandes. Os dois brigavam pelo título de “papa da alta costura brasileira”. A rusga era tão notória que inspirou a primeira versão da novela Ti-Ti-Ti, que teve estréia em 1985. Na trama Jacques Leclair e Victor Valentim viviam as turras e travavam uma verdadeira guerra entre seus ateliês. Tendo uma personalidade forte, havia algumas expressões que marcaram seu vocabulário, como:  “um luxo”,  “divino, maravilhoso”, “essa roupa é uma uva” e “não vamos sair por aí feito umas loucas”. 

De tão marcantes que eram suas expressões, que uma das citadas foi tema da música de Caetano Veloso – Divino Maravilhoso

Sintetizamos uma pequena parte da vida e realizações do “Estilista Luxo”, mas isso é apenas uma parte do que o estilista fez à moda nacional.  Assim como muitos modistas, Dener deu a sua contribuição para a criação do modismo e personalidade brasileira, criou uma espécie de “identidade nacional da moda”, mostrou nosso clima tropical e, (ainda tenta) mostrar através de sua história e feitos nacionais, que a moda é para todos os corpos, idades, gostos e estilo das pessoas, que ela não é um padrão, que é personalidade. 

Desenvolveu o fashion altamente qualificado e exclusivo. Destacou-se pela facilidade de criar e expressar a personalidade de sua cliente, acrescentando seu toque pessoal. Todas essas características mínimas que em sua junção fizeram dele,

“... o mais chato, o mais esnobe, o mais culto, o mais industrial, o mais besta, pois, na verdade, sou tudo isso.” Dener Pamplona de Abreu.

Joice Melo


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