O Closet OnLine entrou esse ano com a missão de contar aos seus leitores uma parte que eles provavelmente não conhecem sobre as mídias de moda que têm acesso, a história delas. Para começar, escolhemos falar sobre a Harper’s Bazaar, a icônica revista de moda que depois de mais de um século chegou ao Brasil.

Gisele Bündchen em editorial fotografado por Terry Richardson e publicado na primeira edição da Harper's Bazaar no Brasil, em novembro de 2011.
História
A Harper's Bazaar tem um lugar cativo no panteão das revistas consagradas pelo cenário disso que se convencionou chamar de “mundo fashion”. E é desde cedo que esta “fonte de estilo para as mulheres e as mentes bem vestidas*” se tornou tão influente.
Tudo começou quando, logo após a Guerra Civil Americana, em novembro de 1867, Fletcher Harper resolveu implantar uma revista feminina que abordasse moda e assuntos domésticos direcionada para a típica dona de casa da classe média da época em sua editora Harper & Brothers**. A partir dessa vontade de Fletcher, nasceu, então, a Harper’s Bazar — e não é erro de digitação do Closet OnLine escrever ‘Bazar’ (com apenas uma letra ‘a’), pois foi só depois de trinta e cinco anos de publicação que ‘Bazaar’ veio a ser utilizado. Seu primeiro número, que circulou em forma de folhetim, foi algo inédito do segmento no mercado editorial norte-americano; antes, somente em Paris lia-se sobre moda e seus correlatos. Ele fez grande sucesso acerca da elite norte-americana, sobretudo graças às estampas dos desejáveis modelos de renomados estilistas da época, como o “Pai da alta-costura”, Charles Frederick Worth, e fato curioso: ao invés, de serem fotografados, os mesmos eram ilustrados. Assim, inclusive, foi até 1894, quando, além das influências da Art Nouveau***, a publicação começou a utilizar de fotografias.

Capa das edições da Harper's Bazaar nos Estados Unidos (à esquerda) e na Espanha.
Fletcher Harper morreu em 1877, mas até hoje a sua icônica revista se mantém viva. No ano de 1901, ela se tornou mensal e em 1913 foi comprada pelo império Hearst de publicações por uma bagatela de dez mil dólares. Dezessete anos sob a nova direção, a Harper’s Bazaar — já adotando a segunda letra “a” em “Bazaar” — ganhou sua edição britânica. Daí para frente, seu status foi crescendo em exponencial número, principalmente quando, de 1933 a 1958, Carmel Snow assumiu o cargo de editora-chefe. A título de curiosidade, foi com sua talentosíssima equipe que a logotipo da revista, que é conhecido como “Didone”, foi criado. Por falar na equipe de Carmel, vale lembrar que um dos nomes que a incluía é o da pomposa editora Diana Vreeland, que destilou comentários sobre a moda da época até 1962, ano de sua transferência para a concorrente Vogue. E nem com a perda da visionária que a Harper’s Bazaar foi prejudicada. Muito pelo contrário. Atualmente, ela já é editada em vinte e sete países — e vendida em mais de noventa. O Brasil, apesar de ter ganhado sua versão da revista há pouco tempo, está mostrando uma aceitação que, segundo a editora-chefe Maria Prata, não era imaginado.
* slogan adotado pela revista Harper's Bazaar.
** 'Brothers' [irmãos, em inglês] porque a editora pertencia não só a Fletcher Harper, mas, também, aos seus irmãos, Tiago, João e José Wesley.
*** também Arte Nova, foi um estilo estético essencialmente de design que teve grande destaque durante a Belle Époque, nas últimas décadas do Século XIX e primeiras décadas do Século XX.
Editoras, fotógrafos e colunistas
Enquanto quase todo o mundo já ouviu falar de Anna Wintour e Andre Leon Talley, ambas da Vogue, poucas são as pessoas que sabem quem fizeram e fazem a Harper’s Bazaar acontecer. Desde que criada, uma miríade de gente já passou pela revista. Dentre as editoras, estão as já citadas Carmel Snow e Diana Vreeland; Carrie Donovan; Liz Tilberis; Alexey Brodovich; e Brana Wolf. Dentre os fotógrafos e ilustradores, Louise Dahl-Wolfe; Man Ray; Diane Arbus; Richard Avedon; Robert Frank; Inez van Lamsweerde; Craig McDean; e Patrick Demarchelier. Por fim, no nicho das colunistas, tem-se Alice Meynell; Daisy Fellowes; Gloria Guinness; e Eleanor Hoyt Brainerd.
Destaques
Dos muitos que passaram na revista de mais de uma década de história, alguns se destacaram, a saber:
Carmel Snow: editora-chefe que trouxe vida para as páginas da Harper’s Bazaar. Ela reuniu a mais talentosa equipe para a revista e trabalhou duro em cada edição, que sempre superava a sua anterior. A estadia dessa visionária mulher na Bazaar durou até 1957, ano em que ela, aos setenta anos de idade, se aposentou.

Carmel Snow
Richard Avedon: fotógrafo que, aos vintes e dois anos de idade apenas, fez com que mais e mais pessoas quisessem ler a Harper’s Bazaar. Tal conquista se deu, obviamente, por suas fotos, que retratavam uma despreocupação chic e uma vitalidade sem limites jamais vista. Para conhecer mais de sua história, assistir o filme “Funny Face”, de 1957, é uma boa pedida.

Richard Avendon
Diana Vreeland: descoberta por Carmel Snow, essa editora de moda chamou muito a atenção dos leitores da Harper’s Bazaar com sua icônica coluna “Why don’t you...?” (“Por que você não...?”, em português), que, durante a última São Paulo Fashion Week, foi reproduzida no site da edição brasileira. Além disso, seu trabalho em parceria com os fotógrafos Louise Dahl-Wolfe e Richard Avedon e, posteriormente, com o diretor de arte Henry Lobo, rendeu histórias lendárias, encontradas, também, em “Funny Face”.

Diana Vreeland
Top 10 das primeiras capas e matérias

Primeira edição da Harper’s Bazar, publicada em 02 de novembro de 1867 (à esquerda).À direita,uma ilustração feita à mão dos melhores guarda-chuvas da época (1871)

Trajes típicos de roupas para banho das mulheres do Século XIX (1876). À direita, primeira edição com uma modelo na capa. Publicada em 07 de abril de 1888.

1894, primeira edição com uma capa colorida. Em 1900, uma ilustração feita à mão de elaboradas mangas culminou com a popularização das máquinas de costura.

Uma das primeiras matérias de dicas de compra de lingerie, em 1906. Em 1912, Uma ilustração feita por Georges Barbier retratando vestidos do estilista Paul Poiret, fez grande sucesso.

Primeira capa da Harper’s Bazaar adotando a segunda letra ‘a’ em ‘Bazaar’, em 1930. E a primeira matéria “Why don’t you...?”, publicada em 1936.
Brasil
A Harper’s Bazaar chegou à pátria amada mais de um século depois de ter nascido; mais precisamente no dia 03 de novembro do ano passado. E, ao que parece, isso se deveu ao fato de que, depois de perder a revista Vogue para a Editora Globo, a Carta Editorial precisaria de um novo título para cobrir a moda nacional e internacional. Mas é a editora-chefe Maria Prata quem tem mais para falar sobre isso: “O desejo da Hearst em entrar com o título no Brasil era antigo, e a Carta [Editorial] era, sem dúvida, a melhor editora para tocar a Harper’s no Brasil.

Capas da Harper's Bazaar Brasil de novembro e dezembro de 2011
Mesmo com poucas edições lançadas, já se pode dizer que o conteúdo da Harper’s Bazaar Brasil é ótimo e consegue contornar as crises do setor impresso. “Estar a frente dessa revista é um desafio enorme. É um título importantíssimo, que já está fazendo sucesso por aqui, mesmo com tão pouco tempo de vida. Estamos bem felizes com o resultado!”, conta Maria, que acha, ainda, que “a mídia impressa está entendendo o seu papel, que já não é mais o da informação, do furo. É o momento da curadoria, da melhor escolha de pautas, imagens, moda”.
Por trás do grande sucesso da versão brasileira da Harper’s está, além da já mencionada Maria Prata, a publisher Patricia Carta, as editoras Carolina Overmeer e Renata Piza. Entra também para essa lista a jornalista inglesa Suzy Menkes e o top fotógrado norte-americano Terry Richardson.

Capas da Harper's Bazaar Brasil, de janeiro e fevereiro de 2012.
Por Vítor Henrique.